William Mattos tem actualmente 40 anos. Quando questionado sobre a profissão, responde que está semi-reformado mas desenganem-se aqueles que pensam encontrar um inglês sedentário! Nos anos 90, era presença habitual em provas europeias de freestyle e em algumas de kayaksurf. Assume que a competição nem sempre foi o seu objectivo e, a última vez que participou numa prova de kayaksurf, ocorreu em 2004 em Mundaka. Acumulando a experiência do freestyle e do kayaksurf, Bill Mattos dedicou-se à escrita e já são sete livros publicados que abordam a canoagem em geral, a sobrevivência em actividades extremas e, claro, o kayaksurf. Já andou pelo nosso país e encantou-se com o surf da Figueira da Foz. Conta no extenso currículo uma aventura que fez correr muita tinta em 2003, altura em que juntamente com mais três amigos se aventurou a surfar as poderosas ondas de Tehaupo no Tahiti. As fotos correram mundo e falam por si. Uma autêntica consagração do kayaksurf. Confessa que sentiu medo. Do verdadeiro. Já Nathan Eades - quando entrevistado pelo kayaksurf.net em Novembro de 2004 - confessou a mesma experiência. Para a história, ficam fotos inesquecíveis, umas cabeças partidas e, pelo meio, muita, muita adrenalina.
KAYAKSURF.NET - Olá Bill. Tu já ganhaste várias provas nacionais e internacionais e tens grande experiência em várias disciplinas da canoagem. Achas que todas se complementam e ajudam no kayaksurf ou pensas que o surf é mais importante?
BILL MATTOS – Pode ser negativo ter muita experiência em várias áreas mas, para ser sincero, não acho que o kayaksurf exija muita experiência acerca de outras modalidades da canoagem. O kayaksurf tem as suas próprias técnicas. O facto de ter muita experiência ajuda-nos mais nos "embrulhos" e no desenrolar do surf. Se surfares de prancha vais ver que mal te pões num kayak é muito fácil conseguir uma boa posição e apanhar ondas.
Tu já escrecveste sete livros sobre canoagem mas há um específico sobre kayaksurf. Como te surgiu a ideia?
À venda na Amazon - tudo sobre kayaksurf
|
Quis escrevê-lo para mim e, felizmente, o editor confiou em mim - talvez porque já tinha escrito outros livros e arrecadara uma certa reputação. Sei que não farei muito dinheiro com este livro - a não ser que tenha muita sorte - mas a ideia era fazer um livro sobre kayaksurf que fosse cool e que não desse uma imagem errada deste desporto. Pelo menos, sei que procurei fazer com ele seja cool...
Onde é que achas que o kayaksurf irá chegar?
Eu acho que há um futuro excitante para o kayaksurf - acho que o seu momento já chegou. Fico satisfeito em ver que há pessoal a fazer grandes aéreos e com muita regularidade. Só espero é que a obsessão em se aproximar das manobras que os wave-skis ou as pranchas de surf fazem melhor, não transforme o kayaksurf em algo mais do que kayks ;)
Eu já entrevistei o Nathan Eades acerca da vossa aventura em Teahupo no Tahiti. Relembra-nos como tudo correu...
Simmm, fomos até ao Tahiti em 2003. Teahupo era sem dúvida o nosso objectivo e o que nos garantia os apoios e patrocínios necessários. Na verdade, nem fazíamos ideia onde iríamos surfar a famosa onda mas também sabíamos que, mesmo que não conseguíssemos surfar, teríamos grandes fotos e outras ondas de certeza absoluta. Fico satisfeito porque podemos dizer que surfámos Teahupo mas não foi fácil - andámos sempre no limite e com um medo quase de morte (mesmo num dia em que o mar não estava muito alto). Surfámos grandes ondas em muitos spots secretos. Na verdade, a melhor coisa de toda a viagem, foi a forma como fomos recebidos pelos locais que nos levaram até spots incríveis.
Então tiveram medo daquelas ondas...
Sim. Teahupo em particular. Era muito raso e a onda tinha muita força mas, pior do que tudo isto, era a reputação que daquele spot. Nós pensávamos mesmo que podíamos morrer ali mas, de facto, acabámos por ter mais acidentes e lesões noutros spots no Tahiti que não nos atemorizavam tanto. A verdade é que, todos os spots no Tahiti são muito rasos, poderosos e muito arriscados. Teahupo é que tem mais reputação porque, como há muito perto um parque automóvel de onde se vê a praia, permite uma maior acessibilidade (e visibilidade).
Bill Mattos a surfar algures no Tahiti, 2003 - Foto: goatboater.com |
Tu já trabalhaste como canoísta profissional. Como é que foi? Acreditas que se pode sobreviver financeiramente com uma ocupação como essa?
Bom, sim, mas eu acho que é mais "sobreviver" do que fazer disso vida. Eu conheço muitos canoístas que não fazem mais nada a não ser andar de kayak e mais alguns que também alguns que são guias de rios ou monitores. É muito bom "trabalhar" assim mas talvez não para toda a vida...
E um kayaksurffista profissional... achas que já é possível?
Por agora, duvido muito. Talvez um dia. Eu acho que as pessoas se esquecem que é preciso (também) ser bom no lado empresarial, conseguir retorno para os patrocinadores, e não somente andar de kayak. Quando os melhores canoístas conseguem conciliar estas partes, poderão conseguir viver à custa disso. Só para termos uma ideia, já tive oportunidade de conhecer grandes surfistas (de prancha), grandes craques, e que, mesmo assim, têm que ter um segundo emprego para conseguirem sobreviver.
Quais são as tuas ocupações, neste momento, em torno da canoagem - escritor, designer, empresário...
www.nookie.co.uk |
Quando acabar de responder a estas questões, continuou a fazer revisões a um dos meus livros que vai ser republicado. É um livro muito básico que teve muito sucesso e que foi traduzido para várias línguas. Também estou a trabalhar em novos projectos que envolvem a Nookie (empresa fundada e gerida por Bill) e que espero que sejam espectaculares. Por agora, não digo mais nada porque ainda não quero divulgar ;)
Como é que vês a evolução dos modelos actuais de surfkayaks? Inovadores?
Eu acho que os modelos actuais são muito inovadores e fico contente em ver que há mais gente a desenhá-los. Mas espero que os kayaks se mantenham como kayaks. Eu não quero remar uma coisa desconfortável ou que não se comporte como um barco - se isso acontecer, acho que prefiro a minha prancha de surf.
E como vês a moda dos "aéreos" no kayaksurf? Hoje em dia há cada vez mais gente a sacá-los...
Hoje, finalmente, já se vêm grandes aéreos. Isto deve-se, em parte, ao design dos surfkayaks mas acho que há muito a fazer entre os kayaksurfistas. Já se vêm muitos e os media já despertaram para eles e isso é bom para engrandecer o kayaksurf.