Chris Harvey - numa grande foto de Vince Shay que foi a capa da edição da Primavera 2006 da Kayak Session
CHRIS HARVEY
Chris Harvey é o homem do momento. A incrível fofografia que Vince Shay lhe tirou na Califórnia - e que fez a capa desta edição da Kayak Session - só reforçou a sua imagem de grande kayaksurfer e promotor deste desporto. Chris tam actualmente 26 anos e é natural da ilha de Guernsey, nas Channel Island, Reino Unido. Escolheu ser professor como profissão e o kayaksurf como desporto de eleição. Com apenas 9 anos, já brincava nas ondas e aos 16, já fazia parte da equipa de kayak polo da sua ilha. Foi também por esta idade que terá começado a descer uns rios e a conhecer outras vertentes da canoagem, no entanto, e certamente porque é acima de tudo um ilhéu, a paixão pelo mar foi mais forte que todas as outras "disciplinas" da canoagem. Já efectuou várias expedições à volta de Guernsey e pelo norte de França. Há três anos, descobriu o "power" de surfar com um surfkayak de carbono e desde então, nunca mais quis outra coisa. Actualmente, é o número um no ranking regional de kayaksurf das Channel Island e o segundo no Reino Unido. Assume-se mais como um indefectível da classe Open (HP) e, no ranking mundial desta classe, está na nona posição (nos IC está em décimo). Para este ano de 2006, Chris tem agendadas várias participações que incluem viagens até aos EUA, País Basco (Mundaka) e França. É aliás na zona de Biarritz, na costa norte francesa, que Chris pretende organizar para o final desta ano um "film festival" à volta do kayaksurf. Para 2007, estão na calha dois projectos de sonho para qualquer kayaksurfer: Hawaii e Indonésia. Cá estaremos para dar as novidades e saber todas as aventuras de um dos nomes que mais tem sobressaído últimamente no cenário mundial do kayaksurf. Good luck Chris!
As ilhas do Canal - Os ingleses mais franceses do Reino Unido
As ilhas do Canal (Alderney, Guernsey, Jersey e Sark) situam-se a escassos quilómetros da costa noroeste de França e fazem que os 165.000 habitantes estejam mais próximos da Normandia (30 milhas) do que de Weymouth, no sudoeste do Reino Unido (60 milhas). Historicamente disputadas quer pela França, quer pela Inglaterra, as Ilhas do Canal são soberanamente britânicas desde início do século XII. Apesar desta inclusão no Reino Unido, sempre alimentaram ímpetos de independência. A sua estóica resistência é conhecida e foi colocada à prova no século passado aquando da ocupação nazi durante a segunda guerra mundial. A ocupação germânica durante cinco anos, fez com que milhares de ilhéus fugissem para a Inglaterra e solidificassem os laços históricos com a grande ilha. Entalados geograficamente entre franceses e ingleses, os habitantes das Channel Island orgulham-se da sua autonomia. Ainda hoje, dizem que a sua lealdade à corôa britânica foi uma opção e não uma conquista e para o reforçar, recordam que foi precisamente em 1066 que o Duque das Channel conquistou a Inglaterra e não o contrário.
Channel Island
www.kayaksurf.net - Olá Chris... participaste no mundial da Costa Rica e estás, definitivamente, em alta! Como é que vês a evolução do kayaksurf depois de teres competido com os melhores do mundo?
CHRIS HARVEY – Foi uma experiência fantástica ter ido à Costa Rica. Mesmo antes da competição, já se sabia que o nível competitivo iria ser mais elevado do que nas anteriores. E isto correspondeu inteiramente à verdade. Todos os atletas injectaram uma dose suplementar de espectáculo às suas performances. Foi altamente termos visto novas manobras, falarmos acerca de novas técnicas e fazermos parte de todo aquele ambiente que contagiava qualquer um e que muito contribuiu para o desenvolvimento deste desporto.
Chris Harvey
Estás mais motivado para a vertente competitiva depois desta participação no mundial de 2005?
Depois do mundial sinto-me decididamente mais motivado para desempenhar um papel em prol do desenvolvimento deste desporto e a investir as minhas energias e recursos de forma a conseguir alcançar mais objectivos na minha carreira. Acho que este desporto ainda é relativamente "pequeno" mas estamos actualmente a atravessar um nível em que temos a oportunidade de promover a imagem do kayaksurf e de atrair cada vez mais viciados em adrenalina.
Como é que vês o futuro do kayaksurf?
Acho que, actualmente, estamos numa encruzilhada e a direcção a seguir está dependente de um número de factores. Gostaria de ver o nível de promoção deste desporto cada vez mais alto assim como a sua cobertura por parte dos media. Só assim se conseguem patrocínios tanto para atletas como para as provas. Estou muito entusiasmado com esta perspectiva dos campeonatos mundiais. Acho que o kayaksurf está agora num estádio em que já consegue organizar provas desta envergadura e só espero é que os patrocinadores também vejam as potencialidades desta evolução.
Chris Harvey
Como é que vês as recentes alterações ao regulamento das provas, particularmente, no que diz respeito ao limite de comprimento para a classe dos kayaks mais pequenos (Open)?
OK, esta é uma das difícies!... talvez esta limitação de comprimento seja benéfica para fazer com que classe dos kayaks mais pequenos fique mais competitiva com todos os canoístas em igualdade de circunstâncias. Contudo, esta discussão só surgiu devido à supremacia de desempenho dos kayaks IC sobre os kayaks mais pequenos. Na minha opinião, tudo se deve muito mais à selecção da onda e aos critérios dos juízes. Os kayaks mais pequenos são em muito similares às pranchas de surf mais pequenas (shortboards). Há ondas que são mais apropriadas para os kayaks mais pequenos (e shortboards) mas há outras para os IC (longborads). Com a evolução das manobras que se conseguem sacar com kayaks mais pequenos, como os aéreos, acho que, numa onda potente e com uma boa parede, os kayaks mais pequenos conseguem performances superiores aos IC. Em ondas mais baixas, os kayaks mais pequenos ficam impossibilitados de sacar grandes manobras finais na onda e aqui, os kayaks mais longos (IC) ficam em vantagem. Acho que há mesmo o argumento de manter as duas classes em ondas separadas ou, pelo menos, assegurar que as ondas pequenas permitam aos canoístas dos kayaks mais pequenos a execução de manobras finais.
Agora sobre o mundial da Costa Rica... o que é que achaste da organização, júris, locais de prova, etc?
A prova da Costa Rica teve uma das melhores organizações que já vi. O local da prova foi excelente tanto para os atletas como para o público. A comunidade local recebeu-nos muito bem e foi muito bom termos contactado com a cultura local em várias cerimónias que eles organizaram. O júri era bom e, também eles, ficaram impressionados com o grande nível dos competidores. A seleção das ondas ditava a competição mas, infelizmente, a qualidade e as marés não foram muito favoráveis para os kayaks mais pequenos e muitas das vezes nem sequer davam para grandes manobras no final da onda.
Chris Harvey
Como acompanhas a evolução dos novos designs na indústria dos surfkayaks? Inovadores, originais?
Fiquei realmente impressionado com a "revolução" no design que os surfkayaks têm visto nos últimos dois anos. Na Irlanda (Mundial de 2003), havia uma série de novas ideias em discussão. Havia também uma grande parte de pessoal novo nesta área que apostavam em novos designs e ideias. Desde aí, foi só assistir à evolução destas novas ideias. Eu estou particularmente impressionado com o MEGA FURY que já utilizo há mais de um ano. É o surfkayak mais dinâmico em que já alguma vez andei e tem um comportamento muito bom de traseira tal e qual uma prancha. Durante muitos anos, o grande objectivo na construção dos surfkayaks era atingir o peso das pranchas de wave-ski. Neste aspecto, estou particularmente espantado com as novas apostas da Murky Waters que andam à volta dos 5-6 kg... são os kayaks mais leves que alguma vez experimentei. O REACTION, desenhado por Vince Shay para a Murky Waters, é disso um exemplo. O modelo é, provavelmente, o kayak pequeno mais rápido em que alguma vez andei. Faz paredes como num sonho e permite estas manobras tanto a principiantes como aos mais experientes potencializando todas as emoções do kayaksurf.
Chris Harvey
E as manobras áereas... assim como a que tens na capa da Kayak Session. Achas que ainda é possível evoluir mais nesta área?
Nos últimos tempos, os aéreos no kayaksurf (bem como a queda de novo na onda) têm sido muito ambicionados pelos melhores kayaksurfers. Só no ano que passou, é que vi estas manobras realmente a surgir de forma consistente. São executadas pelos melhores kayaksurfers, aqueles que depois de as executarem "aterram" de novo na onda e continuam a surfar. Neste aspecto, aprendi imenso com vídeos de wave-ski e via que o design dos kayaks era ainda impeditivo para nós. Combinados com uma boa técnica, kayaks como o MEGA FURY, por exemplo - que são muito rápidos, dinâmicos e que se agarram bastante bem à parede da onda - possibilitam a execução de grandes manobras aéreas. Quanto mais alto "voarmos", mais novas manobras surgirão. No mundial da Costa Rica, andei a experimentar esquimotagens "aéreas" no topo da onda e outras coisas do género juntamente com o Dave Johnston, que está a investir bastante nestas novas potencialidades. No que diz respeito a novas manobras e ao design dos surfkayaks, este desporto está evoluir mais do que nunca. Estou entusiasmado com a perspectiva de ficar ainda mais "aéreo" e de poder combinar esta faceta com novas manobras.
FURY (MEGA KAYAKS) e REACTION (MURKY WATERS) - os preferidos de Chris
Que balanço fazes da tua participação individual e como equipa, após o Mundial da Costa Rica?
Na classe HP, acho que fui bastante mediano. Como esperava paredes e grandes ondas, andei a treinar duro com um kayak pequeno os aéreos e as manobras mais rápidas e isso deixou-me em desvantagem. No entanto, fiquei contente por alcançar os quartos de final mas espero conseguir melhor da próxima vez! A classe internacional não é a minha especialidade. Estive sem surfar nenhum desses kayaks durante quase um ano e andei a confiar em kayaks emprestados, daí que as minhas expectativas não fossem muito altas nessa classe. No entanto, apesar de não conseguir a velocidade que alcanço com meu surfkayak mais pequeno, consegui chegar aos 12 primeiros e já não foi nada mau... apesar da "pressão" que o pessoal do Jersey Team faz sobre os IC (e até se ofereceram para me comprar um kayak desses), não me estou a imaginar com um IC tão cedo!
Resumidamente, como é que descreves o kayaksurf a um canoísta que habitualmente só faz águas bravas ou feestyle e que nunca tenha experimentado o mar?
É poderoso... desde as grandes e dinâmicas manobras - como o "off the lip" - até sermos sugados pela onda que nos rebenta em cima, o kayaksurf está agora numa nova dimensão. A adrenalina toda, desde as ondas mais pequenas até às condições extremas, permite-nos desfrutar de todos os níveis de canoagem e de progressão neste desporto.
Chris Harvey numa excelente sequência fotografada por CLIVE SYMM
Para acabar, o que achas do kayaksurf.net?
O kayaksurf.net é um site fantástico. É fresco, informativo e promove activamente o desporto. O kayaksurf.net está muito bem inteirado sobre este desporto e o árduo trabalho que a vossa equipa tem em providenciar as entrevistas (entre outros), é realmente positivo. Parabéns para todos os envolvidos no projecto e continuem!
Obrigado Chris e felicidades para todos os teus projectos!
Chris Harvey
SPONSORS DE CHRIS HARVEY
Trabalho publicado em 31 de Março de 2006
Texto - Luis Pedro Abreu
Fotos - VINCE SHAY + CLIVE SYMM
Copyright 2006 Todos os direitos reservados - Luis Pedro Abreu