Imagine uma onda, um surfkayak a iniciar a parede e, de repente, saca um helix perfeito. E como se não bastasse, consegue uma "aterragem" igualmente perfeita que lhe permite continuar a surfar a onda sem espuma nenhuma à mistura. Difícil? Bastante. Até agora, só tinha visto o campeão do mundo John Grossman a fazer tal proeza... e quantas vezes vi o vídeo para perceber a coisa! Mas este ano, na prova europeia de kayaksurf de Mundaka, vi pela primeira vez a coisa feita à minha frente. E com que facilidade! Quem era o homem do Mega Revenge amarelo que todos deixou de boca aberta com tal manobra? Edu. Edu Etxeberria.
O que dizer deste basco? Foi vencedor da Prova de KS de Mundaka 2006, é colaborador do programa da TVE " "AL FILO DE LO IMPOSIBLE", conta 7 expedições internacionais, tem 28 países corridos com o kayak na bagagem, foi 6 vezes campeão espanhol de Freestyle incluindo 2006 e várias vezes vencedor de provas de kayaksurf no País Basco. Acumula sete anos como membro da selecção espanhola de slalom onde se sagrou várias vezes campeão nacional e conta com um sem número de aventuras que incluem rafting, primeiras descidas e circum-navegações. Começou na canoagem com 10 anos de idade e hoje, somente com 33 anos de idade, Edu Etxeberria é um dos canoístas de topo a nível mundial. Já em 2000 se sagrava campeão de kayaksurf em Guipúzcoa e em Euskadi, título que renovou em anos seguintes. Agora, passados seis anos e a participação num mundial de kayaksurf (Costa Rica 2005), Edu olha para o kayaksurf de uma forma, digamos, mais científica. Se antes encarava as ondas do mar como puro entretenimento onde há muitos anos se iniciou a surfar em kayaks de slalom, hoje, procura apurar o seu surf, explorar novas manobras e, acima de tudo, procurar o surfkayak ideal. Tem experimentado os modelos mais recentes de surfkayaks do mercado e ainda está na fase de "pesquisa". É treinador de canoagem, possui uma escola onde acompanha vários juniores (um deles venceu a prova de kayaksurf de Mundaka deste ano) e assume-se viciado em água e desporto. Gosta de andar sobre ela com a sua prancha ou kayak. E, apesar de todo este currículo e experiência internacional, Edu mantém o sorriso tranquilo e humilde de quem gosta apenas de se divertir naquilo que mais gosta… água!
KAYAKSURF.NET - Edu, o que mais te agrada… o rodeo ou o kayaksurf?
EDU ETXEBERRIA – Gosto de ambas as coisas. São actividades completamente diferentes. Para mim, é mais fácil praticar kayaksurf já que vivo na Costa e também porque o spot que tenho mais próximo de casa para o rodeo, fica a duas horas de carro. O rodeo é um desafio directo com a onda ou com o rolo. O rodeo é mais divertido e mais inovador quando praticado em ondas de rio que permitam manobras aéreas. O kayaksurf pode ser mais relaxante se te baseares só no deslizamento.
Nos mundiais de Freestyle da Austrália, ficaste em 20º lugar. Como descreves a tua participação?
São competições em que, se quiseres ter um bom resultado, tens que ir a todas. A primeira etapa correu-me bem mas na seguinte não. O nível era muito elevado para atingir as semifinais. O mundial, em si, é uma prova importante mas parece-me que realizá-lo em locais com tão poucas possibilidades de executar novas manobras, não é bom para o desenvolvimento do desporto. Foi uma competição com as mesmas manobras de 2001 mas mais difícil em relação à permanência na onda.
Qual a melhor recordação que guardas de todas as competições (kayak surf e rodeo) em que já entraste?
Edu ficou em 5º nos mundial de KS |
A melhor recordação que uma prova, pode ser o seu resultado, ou a oportunidade de viajar e conhecer outros spots e outras gentes (que te ajudam a melhorar o teu nível). Quanto a resultados tenho boas recordações de competições locais que me custaram muito a ganhar pela sua dureza. O último mundial de kayaksurf na Costa Rica também foi uma boa competição, já que reuniu todos os factores necessários para tal.
Consideras essencial a experiência da canoagem em rio para a prática do kayaksurf?
Não necessariamente mas toda a prática de um certo tipo de kayak, pode ajudar-te noutro.
E sobre a tua experiência… vejo que começaste nas águas bravas e só depois o kayaksurf. Achas que essa é a melhor estratégia para chegares até ao kayaksurf?
Comecei nos kayaks com 10 anos e, com essa idade, só pensava em divertir-me. Mas como o clube onde comecei estava situado junto à praia, a verdade é que comecei praticando kayaksurf antes de ir para o rio mas, surfávamos em kayaks de slalom.
Edu Etxeberria - Bakio 2006 - Foto: Koldo Erauzkin da bakio.com |
E surf… tens alguma experiência?
Sim, pratico surf sempre que posso.
O que pensas dos kayaksurfers, como o campeão mundial de 2003 John Grossman, que defende a prática do surf como fundamental para o kayak surf?
Não sei se é fundamental mas ajuda muito na leitura das ondas. No surf, não tens outra propulsão que não seja a verticalidade da onda. Para além disso, é mais fácil apanhar ondas com um kayak.
Então que sugestões dás para quem quer iniciar-se neste desporto?
É de bom senso começar com alguém que te ensine as noções básicas e que te explique a técnica do kayak, como saber ler as ondas e a noção de como está a praia (qual o melhor spot, onde praticar, etc). É também imprescindível controlar a esquimotagem porque se não a dominas, tudo vai ser mais doloroso.
Em 2001, no III Campeonato de Euskadi Kayak Surf, ficaste em 1º lugar. Foi uma prova difícil?
Na zona onde vivo há muito a tradição de remar num kayak e o nível dos canoístas é muito bom. Quando se realiza um campeonato, o nível é muito elevado e, para ganhares, é-te exigido muito esforço. Ainda por cima, em 2001, tivemos umas condições de mar muito alto (ondas de 4 metros).
Edu este ano em Mundaka - Foto: kayaksurf.net |
Concordas com o actual sistema de pontuação da Associação Mundial de Kayak Surf que separa os kayaks em IC (clássicos) e HP (freestyle)?
Acho que o regulamento foi alterado em alguns pormenores mas ainda não consultei. Parece-me que vai no bom caminho ao diferenciar as duas modalidades: uma mais espectacular e radical e a outra mais clássica e com kayaks mais longos.
E como estão os apoios financeiros para este deporto?
As marcas podem ajudar-te com material mas é muito difícil conseguir ajudas económicas para poder viajar e muito menos para conseguires viver deste desporto sem que te envolvas noutras actividades.
Como te treinas para as competições? Praticas outros desportos?
Agora não treino especificamente para mim. Treino um grupo de miúdos ao nível do clube e realizo os mesmos treinos com eles. Tive uma base muito boa de treino quando competia no Slalom em alto nível. Muito quilómetros de kayak e horas de ginásio. Agora até acho que esse treino me faria bem outra vez. Também pratico surf sempre que posso.
Agora sobre kayaks... qual o teu preferido para as ondas?
Não tenho actualmente um kayak de ondas. Utilizo um que temos no clube – um Mega Revenge. Tenho experimentado alguns e gostei muito do Reaction, do Super Nova e gostaria de testar um Mega Fury. É um dos assuntos que não me sai da cabeça ultimamente. Gostaria de ter um kayak rápido e capaz de se agarrar bem à onda e que se portasse bem na hora de realizar manobras, ou seja, algo muito difícil de reunir num só kayak.
Super Nova, Mega Revenge, Mega Fury e Reaction |
Tens algum canoísta que admires mais pela sua técnica, performance?
Seria difícil concretizar num só. Há muito bons canoístas por todo o mundo.
Onde costumas surfar?
Sempre surfei na costa do País Basco, mais concretamente na praia de Zurriola e Donosti. A minha favorita é a praia de Orrua, a poucos km para Oeste de minha casa. Para além do mais, temos muito bons spots à volta de Donosti. Desde Landas (França) até mais para Oeste para a Costa Cantábrica.
Qual a tua manobra favorita?
Um bom aéreo ou um tubo.
Edu a divertir-se no rio - Foto: Carlos Preciado |
Já surfaste em Portugal?
Com um kayak, só surfei em Vila Praia de Âncora, perto da fronteira com a Galiza. Conheci praias muito boas que um dia espero surfar mas passei por elas a bordo de um kayak de travessia com 75 quilos e era realmente difícil tentar surfar!
Como está a o kayaksurf em Espanha?
Há muita gente a praticar kayaksurf e há cada vez mais praticantes com surfkayaks de ano para ano porque, até agora, todos andávamos em kayaks de plástico. Eu, quando treinava para o Slalom, também surfava muitas vezes com os aqueles kayaks. Era um estilo mais ou menos aproximado do que hoje são os IC.
Entraste agora numa expedição de kayaks em torno da Península Ibérica... quem organizou e como correu?
Foi uma experiência bonita mas mais dura do que esperava. Tínhamos estabelecido um prazo de três meses para concluir porque estávamos a filmar tudo para o programa da TVE "Al Filo de lo Imposible". Fizemos a travessia com total autonomia e sem qualquer tipo de apoio, nem por terra, nem por mar. Isso obrigou-nos a levar kayaks com muito peso - mais ou menos 75 quilos (tendas, câmaras, cozinha, etc). Devido ao tempo que tínhamos para a expedição e à lentidão dos nossos kayaks, houve muitas paragens que ficaram por fazer e muitos locais que certamente gostaríamos de ter conhecido melhor. Demorámos 95 dias e 90 deles foram sempre a remar.
Depois participaste no Mundial da Costa Rica de Kayak Surf... conta-nos como tudo se passou... Ficaste satisfeito com a tua classificação?
Edu no Mundial de KS da Costa Rica- Foto: Urko Otxoa.
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Antes de sair para a Costa Rica não tinha pensado muito no Mundial. Era a primeira vez que ia a uma prova desse género (Mundial de KS) com um surfkayak e por isso, ia mais com uma mentalidade de aprender e de desfrutar do que outra coisa. Para além disso, éramos dois e só levámos um kayak. Lá comprei uma prancha de surf e passávamos a dia a surfar, ora com kayak ou prancha. Houve também um dia em que me escapei e pude conhecer o rio Pacuare. Levava muita água e serviu para fazer um intervalo na competição. Em relação à prova de KS, e uma vez que estava ali para competir, fui-me aplicando e, à medida que ia passando os vários heats, ia-me animando. No final, tive pena de não ter ido mais longe.
E em 2007 será em Mundaka... boas notícias e boas hipóteses de ganhares "em casa"?
São sempre boas notícias ter um evento com essas características à porta de casa e, sobretudo, se pudermos desfrutar a qualidade da onda de Mundaka. Pode ser incrível. Agora ganhar ou não, isso é outra história. Actualmente, há muitos kayaksurfistas de grande nível que poderão ganhar em Mundaka.
Qual o maior susto que já apanhaste no mar?
Já tive dois sustos no mar. Um em Guetary (França), quando praticava wave-ski. Estava um dia de ondas muito grandes e o cinto da prancha rasgou-se. Tive que nadar muitíssimo para poder sair da água. A outra vez, foi numa situação parecida na praia de Zurriola (Donosti, País Basco). Estava a surfar e o leash partiu-se. Depois, dei por mim a nadar numa corrente que me puxava sempre para dentro.
Como descreves a onda perfeita para surfar com um kayak?
Uma onda com parede mas sem demasiada corrente contra. Com secções diferentes onde possas dropar e fazer tubos e outras mais lentas em que possas sacar manobras na crista da onda.
Conhecias esta página? O que achas dela?
Sim, conhecia e penso que é uma referência para os kayaksurfers.
Agora deixa-nos algumas palavras para os kayaksurfers que por aqui passem...
Desfrutem o kayaksurf em qualquer onda e com qualquer tipo de kayak. Para que todos se divirtam na água, respeitem as normas das praias. E acho que é tudo!!! Encontramo-nos na água!!!
Obrigado Edu! Continua dar notícias das tuas aventuras!