O País Basco é um caso singular em quase toda a Europa. À excepção das ilhas britânicas, talvez seja o local onde mais kayaks encontramos nas ondas. Entre Bizcaia e Guipuzcoa, existem oito clubes de kayak surf com dezenas e dezenas de atletas. Presença habitual nos campeonatos mundiais, o País Basco, seja nas classes individuais ou nas equipas, tem promovido o kayak surf como poucas regiões da Europa. Oskar Martinez, 34 anos de idade, conta com oito de experiência na canoagem e faz da fotografia a sua profissão. Foi quarto no Campeonato de Kayak Surf de Mundaka de 2005, primeiro classificado na prova de Bakio de 2004 e acumula vários segundos e terceiros lugares em provas que decorreram em Berria, Muskiz, Mundaka, Llanes, entre outras. Em 2005, foram até à Costa Rica. Ainda empataram com a poderosa selecção da Inglaterra no início mas, somente com oito representantes, conseguiram o feito de, na final, se classificarem à frente da mediática selecção escocesa. Trouxeram para casa o prémio “Pura Vida” e um dos elementos da selecção basca, Edu Etxeberria, esteve quase a figurar na final de HP. Desta conversa com Oskar, retemos os sábios conselhos de quem acompanhou e se envolveu no despertar desta modalidade no País Basco. Questões como kayaks, regulamentos, júris, de tudo se falou. E vale a pena ler como é que os Bascos chegaram tão longe…
www.kayaksurf.net - Olá Oskar... como te iniciaste no kayak surf?
OSKAR MARTINEZ – Andei muitos anos a remar uma canoa outrigger (banco móvel) e, mais tarde, outro tipo de canoa com banco fixo. Depois passei para os kayaks especializando-me sobre tudo no surf desde o campeonato mundial de KS da Irlanda em 2003.
Oskar (camisola verde), no ano passado em Mundaka
junto aos campeões mundiais Darren Bason e Jonni Bingham
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E sobre rios... tens alguma experiência?
Pouco. Gosto muito da praia. Já desci alguns rios em Espanha e na Costa Rica quando lá estive em 2002 mas gosto mais do ambiente e da vida de uma praia. É uma filosofia muito especial.
Consideras essencial a experiência da canoagem em rio para a prática do kayaksurf?
Não. Tudo o que seja andar de kayak no rio é bom para depois experimentar a praia mas não chega. É muito importante saber ler o mar para escolher as ondas e sacar ao máximo o potencial de cada onda. Acho que é muito importante observarmos provas de surf para conhecer bem certas manobras para depois aplicá-las aos kayaks.
O que pensas dos kayaksurfers, como o campeão mundial de 2003 John Grossman, que defende a prática do surf como fundamental para o kayak surf?
Não acho que seja necessária a experiência do surf mas, como referi na questão anterior, acho que importante conhecer todas as manobras e é muito importante ter o conceito do surf. Podemos encontrar grandes canoístas que, sem este conceito, não sabem tirar o máximo proveito de uma onda. Numa onda, podemos sacar helix ou loops mas, se não são feitas fora da espuma da onda, acho que não devem ser pontuadas. As manobras são para ser executadas na parte crítica da onda, onde são mais difíceis de fazer mas, depois de as fazermos, devemos continuar a surfar a onda. Não devemos perder a onda e as manobras devem ser executadas no “green” da onda e nunca na espuma – defendo o conceito de que a espuma nem deve pontuar. Este conceito é muito similar ao do surf e, vindo do John Grossman, está claro que ele sabe o que é o surf e executa-o com o kayak porque com os kayaks também se conseguem fazer essas manobras.
Oskar Martinez
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No ano passado, foste o vencedor do Open Bakio Kayak Surf. Há quantos anos se realiza esta prova?
Há mais ou menos cinco anos.
Há uma grande comunidade de surfkayakers no País Basco. Como é que tudo começou?
Deve-se ao Luis Abando e ao Txema Carreto que participaram no campeonato mundial de KS na Escócia em 1997 e em todos os campeonatos que se realizaram depois desse. Mas custou-nos um bocado a entrar no kayak surf com os kayaks de fibra. Tal como em Portugal, dávamos mais importância ao Freestyle e às manobras na espuma do que ao surf. Felizmente que tudo isto mudou. Antes de ir à Costa Rica em 2002, estive a surfar com kayaks de fibra do Txema e foi aí que dei conta da diferença que existe entre esses e os de plástico. Ao princípio, custou-me a mudar porque me dava bem nos campeonatos de Kayak Surf Rodeo que se faziam por aqui mas, por fim, reconheci que eram muito melhores para surfar. Na Costa Rica, estive com o Alejo Pacheco a surfar e comprei-lhe um Mega que ele tinha. Desde aí, tenho-me empenhado em demonstrar ao resto dos canoístas do País Basco essa diferença. Até agora, as pontuações que se atribuíam nas provas daqui – excepto em Bakio e Mundaka – eram baseadas nos critérios do rodeo e da espuma. Para nós, era muito difícil obter uma boa classificação porque surfávamos e até os campeonatos oficiais se regiam por essas normas, mas agora, as regras internacionais são cada vez mais usadas. Pode dizer-se que, pouco a pouco, o conceito está a mudar e se há uns anos eram poucos os kayaks de fibra na água, agora, estão em maioria.
Quantas associações/clubes existem de kayak surf?
Em Bizkaia há quatro e em Guipuzkua, outras quatro.
E os kayaksurfers... são exclusivamente surfistas ou têm experiência de rios?
Há de tudo. Gente que anda no rio e que combina com a praia mas há cada vez mais gente que se dedica só à praia. Há que ter em conta que temos a praia a cinco minutos de casa e o rio a mais de uma hora.
Estive o ano passado em Mundaka e o júri da prova de kayak surf era constituído por surfistas de prancha. Concordas com esta ideia?
Sim. Não há dúvida nenhuma que os surfistas são muito bons juízes. O ideal seria que os juízes fossem canoístas mas, de momento, não temos e depois de explicarmos as manobras específicas de um kayak a um juiz de surf, ele está perfeitamente qualificado para as classificar. Em nenhuma das edições do campeonato de Mundaka houve qualquer protesto em relação à pontuação e isso quer dizer algo.
E de futuro, achas que teremos um dia um júri formado só por kayaksurfers?
Acho que o ideal seria um júri formado por kayaksurfers mas, enquanto não há gente qualificada, a melhor opção são os surfistas (de prancha). Há que fazer um esforço a partir das federações para a realização de cursos para juízes mas, enquanto isso não acontece, prefiro um jurado de surfistas com experiência do que um mau júri de canoístas com pouca experiência e sem profissionalismo.
O.M
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Em Portugal andamos com alguma discussão em torno dos júris... como vêm das águas bravas, têm mais tendência para pontuar manobras de freestyle e não de surf. Qual a tua opinião acerca deste assunto?
Aqui, passámos pelo mesmo. Creio que a solução é distinguir dois regulamentos, um de “kayak surf rodeo” em que se pontuem também as manobras na espuma e outro pelas regras da WSKA (Associação Mundial de Kayak Surf), onde a espuma não é pontuável. Na Costa Rica, ficou decidido distinguir duas categorias: uma com kayaks que têm menos de 2.70m que será pontuada pelo seu surf mais radical. Nesta categoria, para além de contarem todas as manobras de surf, pontuam igualmente as manobras do rodeo mas SEMPRE na onda e nunca na espuma (classe open ou HP). Na outra categoria – kayaks com mais de três metros – pontua-se o surf mais tradicional. Esta divisão pretende que a classe dos kayaks mais pequenos dê mais espectáculo. Nesta classe, que fique claro que não basta apanhar a onda e surfá-la desde o princípio sem radicalidade para passar o heat, como aconteceu neste último mundial.
Agora sobre a Costa Rica... satisfeito com a participação da vossa equipa?
Correu tudo bem. Era o que esperávamos do pessoal que levámos. No primeiro dia da competição por equipas, ficámos empatados com a Inglaterra e éramos muito menos. Na final, ficámos à frente da Escócia, que é uma importante referência a nível mundial e acabámos satisfeitos com a nossa participação. De qualquer maneira, um dos elementos da nossa equipa, o Edu Etxeberria, não foi bem pontuado nas semi-finais e não conseguiu chegar à final. Foi uma decisão dos juízes que muitos participantes de outros países não entenderam e nós, muito menos. O Edu podia ter tido um grande papel na final mas, por motivos que não entendemos, ficou de fora. Além do mais, as ondas não foram nada boas. Não eram grandes e não davam para grandes manobras. Teria sido melhor para a nossa equipa se as ondas fossem maiores e de melhor qualidade. Ficámos contentes com a nossa participação porque o comité da WSKA atribuiu o prémio “Pura Vida” à nossa selecção porque - fomos a equipa que mais representava o espírito do campeonato. Para nós, este prémio foi uma honra.
Oskar Martinez
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Quantos kayaksurfers levaram até à Costa Rica?
Oito.
Conseguiram apoios / patrocínios para ajudar nas despesas?
Sim, tivemos o apoio do Governo Basco, da União das Federações Basca e da Federação Basca de Canoagem.
Como é que seleccionaran os atletas que foram até à Costa Rica?
Temos um ranking das provas que realizamos aqui e, antes do campeonato, reunimo-nos com a Federação para seleccionar quais os desportistas que melhor podem representar o País Basco.
E para 2007... onde irá ser o campeonato... Mundaka ou Bakio?
O Campeonato vai celebra-se em Bakio e Mundaka mas a organização é do Club Itxas Ondo de Bakio com o apoio do Club de Mundaka. De momento, a ideia é que a maioria dos dias se passem em Bakio e, quando as condições o permitirem, se compita também em Mundaka. No entanto, a onda de Bakio é mais constante e aguenta mais horas e isso é necessário para as muitas mangas que se desenrolam.
E sobre a organização... é conjunta ou há algum clube que fique com toda a organização do evento?
Itxas Ondo de Bakio com Mundaka para além do apoio do resto de todos os clubes do País Basco e da Federação.
Agora sobre ti... qual o teu kayak favorito para surfar?
Eu gosto dos kayaks pequenos. Agora, surfo com um Mega Mustang mas, no último dia do Campeonato por equipas bati com o kayak no fundo de areia e parti-o. Comprei então na Costa Rica um PS Composites de três metros que uso agora para surfar até que me chegue outro Mega. O PS Composites que uso agora desliza bem, é rápido e proporciona um surf bonito mas não é tão radical no entanto, mesmo com os seus três metros, conseguem-se manobras radicais. Acho que se queres competir numa prova mundial com um kayak de três metros, também tens que treinar com ele. É um estilo de surf que todos deviam experimentar. Na Europa, está a deixar-se um pouco de lado enquanto se potenciam os kayaks mais curtos mas creio que são compatíveis e que se deve surfar com os dois. Cada um comporta sensações diferentes e muito satisfatórias.
MEGA MUSTANG - um dos favoritos de Oskar para surfar
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Qual a tua manobra favorita?
Gosto muito de “floaters” mas, desde que fiz um tubo numa onda de Mundaka, não há nada que se compare. Ver à nossa frente uma parede vertical com 50 metros de comprido que não cai e se aguenta, meter-se dentro do tubo, andar lá vários segundos, ouvir a onda, sair de dentro dela continuar a surfar mais cem metros, é algo que não se pode esquecer e que não acontece todos os dias. Temos que ter boas condições para os kayaks mas, quando tudo coincide, é algo de inesquecível.
Tens algum canoísta que admires mais pela sua técnica, performance?
Gosto muito do Dave Johnston, Darran Bason, Edu Etxeberria e Alejo Pacheco que é muito bom em ondas grandes.
Onde costumas surfar?
Na praia Selvagem de Sopelana, em Bakio e, quando posso, em Mundaka.
Oskar a surfar em Bakio
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Já surfaste em Portugal?
Sim, estive lá este Verão e conheci o Rui Benedito na Ericeira (Campeão Nacional de Kayak Surf 2004). Apanhei ondas muito boas nessa praia, as melhores que consegui em Portugal. Em Peniche não correu muito bem porque estava muito agitado. Também andei pela praia da Amoreira (Aljezur) e a zona de Sagres estava com mar pequeno e com vento. A direita de Ribeira de Ilhas na Ericeira foi sem dúvida o melhor.
E como vês este desporto a nível mundial?
De campeonato para campeonato, há cada vez mais nível, novas manobras e os kayaksurfers são melhores.
Oskar Martinez
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Qual o maior susto que já apanhaste no mar?
Foi um dia em Mundaka. Estava ondas de 2,5m, não eram das maiores que temos apanhado mas estava muito forte. Ao apanhar a onda, estava maré baixa, não cobria quase nada, cai contra o fundo de areia. Foi uma queda muito forte e parti o kayak… menos mal que não foi com a cabeça. Num outro dia, em Sopelana, estavam as ondas a quebrar muito, dei com a cabeça na areia e maltratei a cervical. Tive que andar dois meses com um colar cervical.
Como descreves a onda perfeita para surfar com um kayak?
Mundaka. Tem que ser rápida, com uma boa parede, que permita fazer o maior número possível de manobras, com vento de sul, que entube e que, no final, ainda permita uma manobra do tipo cartwheel, loop ou floater.
Quais os projectos mais próximos que tens para o kayak surf?
Agora, já estamos a organizar o campeonato de Mundaka de 2006 que será nos dias 29 e 30 de Abril. Em Junho, farei um “surfari” ainda que não saiba onde e depois gostaria de ir ao vosso Campeonato de Peniche.
Conhecias esta página? O que achas dela?
Sim, já a conhecia bem mesmo antes de teres vindo a Mundaka. Acho que estás a fazer um grande trabalho na divulgação do kayak surf e este tipo de páginas são muito importantes para conhecermos os desportistas de todo o mundo.
Agora deixa-nos algumas palavras para os kayaksurfers que por aqui passem...
Para já, espero que todos venham até Mundaka em 2006 e ao Campeonato Mundial de 2007 em Bakio, senão, num outro dia qualquer. Não é necessário termos um campeonato para virem até cá. Estamos cá para todos os que quiserem vir surfar connosco no País Basco. Grande abraço, vemo-nos na água. Pura Vida.
Eskerrik asko denori, agur , gora euskadi
Obrigado Oskar, boas ondas e até Mundaka!
Trabalho publicado em 6 de Janeiro de 2006
Texto - Luis Pedro Abreu
Fotos - Agustin Mentxaka