Ao olharmos para o currículo de Paulo Lopes, facilmente compreendemos que o desporto sempre esteve inscrito como prioridade. Nas bicicletas, pranchas, motas, skis, kayaks, botijas de mergulho, cordas e afins, tudo serviu de estágio para a criação da Capitão Dureza - estratégia partilhada e muito bem conseguida em conjunto com o irmão, Rui Lopes. Depois, veio a formação académica como professor do ensino básico licenciado em... Educação Física, está claro. Hoje, com 32 anos de idade, Paulo Lopes continua a fazer aquilo que mais gosta. Lecciona e perde-se por uma boa aventura. Até pode ser pequenina como um cannyoning no rio Teixeira. Mas também pode ser bem mais longínqua como uma ascensão ao Toubkal em Marrocos. Praticante de kayaksurf desde 1988, acumulou toda a experiência dos rios nas ondas da Figueira da Foz. A prancha de surf também é uma alternativa desde 1993 e a prática da canoagem de mar, águas bravas e freestyle, consolidaram a técnica e as manobras. Já lá vão os anos em que com uma “traineira de 4 metros” já experimentava surfar nas ondas da Figueira. Depois passou aos plásticos. E agora regressou aos compósitos. Tudo para surfar (também) com kayaks. A evolução e perseverança do Paulo deram resultados: foi terceiro no II campeonato internacional de kayaksurf de Peniche 2004, participou na primeira equipa nacional de kayaksurf em Mundaka 2006 e, nesse mesmo ano, venceu a prova de Peniche. Este ano, logo na primeira prova do circuito nacional de kayaksurf - Praia Grande - sagrou-se vencedor na classe estilo liver e no segundo lugar em kayaksurf. Também podemos encontrá-lo como guia de canoagem, rafting, trekking e canyoning. É caso para dizer... o homem não pára! Mas é mesmo assim. A comprovar toda esta actividade, está o seu extenso currículo em diversas modalidades mas agora, prioridade para o kayaksurf!
KAYAKSURF.NET - Olá Paulo... tens acompanhado, praticamente desde o início, o fenómeno do kayaksurf em Portugal. Como vês a evolução da modalidade?
PAULO LOPES – A modalidade em si, acho que tem tido um crescimento lento, mas que nestes últimos dois/três anos, deu um pulo, recebendo mais e mais praticantes.
Tens experiência de surf e um grande domínio em águas bravas (rafting incluído). Que mais-valias retiras da cada uma destas modalidades para a prática do kayaksurf?
O surf, efectivamente acaba por ser um forte elo de ligação com o kayaksurf, a dinâmica, o ritmo, a espera e a escolha das ondas, assim como o surfar em si, estão muito ligados. As águas bravas, ajudam apenas na preparação e hábito para os tralhos que se vão dando no KS.
Guia e segurança em águas bravas no Paiva |
Começaste a surfar - como quase todos nós - com os "plásticos" que usamos nos rios. Agora, surfas com um Mega... como descreves a mudança?
Estás enganado Luís, não comecei a surfar com um K de plástico. Comecei sim com uma traineira de fibra de vidro, de 4 m ou coisa do género, a passagem para um de plástico, deixou-me nas nuvens, a manobrabilidade, a leveza… a passagem para um Mega, ai ai, sentado numa prancha de surf, com as pernas tapadas, muita velocidade, muito aproveitamento de uma onda, ainda mais leveza, mas, menos permissividade. À menor falha e tapum, sai balde.
MEGA REFLEX - o eleito de Paulo para surfar na sua classe favorita: kayaksurf |
No entanto, este ano, na prova da Praia Grande, venceste com o teu Riot Techno na classe "estilo livre" - recém criada para o circuito 2007. Explica-nos o que é o estilo livre... dentro de uma prova de kayaksurf...
A meu ver, o estilo livre, será tentar fazer a onda (impossível numa onda rápida com barcos desta categoria) criando manobras mais "radicais", que também são difíceis de fazer com um kayak de surf puro. A força da espuma ainda serve de trampolim para muitas manobras nesta categoria. O kayak de estilo livre é mais lento, mais saltitão e permite com maior facilidade blunts, e outras manobras muito vistosas. Devo dizer nesta questão, que a minha vitória nesta prova, foi mero acaso. Estava um mar muito duro, que não deixou vir ao de cima a perícia de todos participantes de igual forma. Dou um exemplo, estive no último hit a concorrer ao lado do Calado que manda uns blunts muito aéreos, mas que dadas as condições, não teve oportunidade de o demonstrar, senão… (dá-me vontade de rir ao lembrar-me desse hit, ao fim de alguns minutos, todo roto e encostado à areia, olhar para o lado e ver todos os participantes encostados também à areia, dentro do kayak e derrotados, a olhar para o mar incessante)…
Paulo Lopes / Peniche / Outubro 2006 |
Com esta classe, já são três as que estão em prova nos eventos de kayaksurf - estilo livre, sit-on-top e kayaksurf. Concordas com estas divisões numa modalidade tão recente?
Sem dúvida que concordo, dá a hipótese de todos os praticantes participarem, independentemente das aptidões e das suas categorias, espantado fiquei, frustrado até, com a falta de adesão nesta prova da Praia Grande. Sempre pensei que a divisão seria benéfica, porque há muitos praticantes de sit-on-top espalhados por Portugal, e seria uma boa maneira de os introduzir nestas provas Onde é que eles andaram? A malta não gosta de convívio? Também surgiram muitos rumores em relação às diferenças entre as capacidades de um surfkayak e um playboat e então, mais uma vez, será uma boa maneira de colocar toda a gente em pé de igualdade, aumentando assim a motivação para a participação. Quanto mais melhor pessoal, pagaias na água, olhos e divertimento na areia é o que eu desejo para esta modalidade.
Qual a classe onde te sentes mais à vontade?
A que me dá uma gratificação maior depois de uma sessão, é sem dúvida a classe de kayaksurf puro.
Vais participar em todas as provas?
Gostaria, a ver vamos…
E sobre o número de participantes... achas que já temos kayaksurfistas em número suficiente para as classes recém criadas?
Ora bem, este ano, em Abril estiveram presentes na Figueira da Foz canoistas suficientes para dar uma valente dor de cabeça aos júris, pela quantidade de pessoal e qualidade. Também estou certo que não estiveram lá todos. Já há muita gente a andar, creio que o interesse destas provas, serão também juntar este grupo de pessoal (canoistas). Porra, como é que o Tunning em Portugal consegue ter um número superior?
Uma das questões que mais se colocou em relação ao circuito deste ano prendeu-se com a constituição dos júris. Já participaste em Mundaka (júri constituído por surfistas de prancha) e já ganhaste provas nacionais. Como devem ser os júris de uma prova de kayaksurf?
Eu acho que deve existir uma fusão. Surfistas de prancha sim senhor mas todos sabemos que também existem diferenças, uma mistura entre os júris não seria incorrecto.
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“... em Abril estiveram presentes na Figueira da Foz canoistas
suficientes para dar uma valente dor de cabeça aos júris, pela quantidade do pessoal e qualidade."
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Paulo Lopes - Buarcos 2006 - foto: Hugo Paz |
O Team Mar Bravo - do qual fizeste parte durante a sua existência - foi pioneiro no kayaksurf nacional. Para quando outro Team?
Para já, acho que devemos muito ao responsável da Mar Bravo (Jorge Lopes), obrigado por teres introduzido com garra estes kayaks em Portugal. Mexeu com o bichinho dos fabricantes nacionais e eis que arrancam muitos e novos modelos. Mas quanto ao Team, para já conto com o patrocínio familiar que me atura nesta minha paixão.
Uma outra experiência pioneira em que estiveste envolvido foi a organização da primeira Kayaksurf Session - Figueira da Foz a 14 de Abril. Que balanço fazes da iniciativa?
Muito bom, já falei sobre isso. Usando palavras de um grande canoista Português, Luís Vieira "Esta cena foi um excelente barómetro, deu perfeitamente para ver a quantidade de malta que gosta e pratica kayaksurf" .